Em 1996, o cirurgião Hélio Poço Ferreira realizou algumas cirurgias cardiovasculares na Santa Casa de Araçatuba. Teria sido o início de um novo ciclo na história do hospital, caso o projeto não tivesse esbarrado em alguns obstáculos, como a falta de uma UTI específica para recuperação pós-cirúrgica, fator que levou a equipe médica e a direção do hospital a suspender os procedimentos.
A retomada do projeto mobilizou médicos e administradores do hospital, que, de posse de um planejamento técnico-científico, iniciaram, naquele mesmo ano, a captação de recursos institucionais e financeiros para retomada do projeto.
Conseguiram bem mais do isso. Após 10 anos de investimentos e trabalho, a Santa Casa de Araçatuba foi transformada em centro de excelência para tratamento de cardiopatias: de consultas ambulatoriais às cirurgias, passando por um moderno centro para diagnóstico e pronto socorro 24 horas.
Nesta entrevista, o cirurgião Hélio Poço Ferreira, chefe do Serviço de Cirurgia Cardiovascular, avalia o desempenho da especialidade e fala sobre os novos desafios do setor.
Site Santa Casa - O que representa para o senhor ter fundado e estar há 10 anos à frente do Serviço de Cirurgias Cardiovasculares da Santa Casa?
Hélio Poço Ferreira: Foi um grande desafio, que envolveu equipe médica e a direção da Santa Casa, que demonstrou desde o inicio, uma visão de futuro. Mesmo com sérios problemas financeiros, e trabalhando com déficit na maior parte do tempo, as diretorias que se sucederam ao longo desses dez anos deram todo apoio para continuarmos investindo, para que o mais importante hospital da região fosse também um centro de tratamentos cardiológicos.Agradeço às várias diretorias pela credibilidade, investimentos e apoio nas horas mais difíceis. E não foram poucas as dificuldades que enfrentamos juntos.
SSC - Se antes os pacientes precisavam viajar para outras regiões, hoje podem ser operados em Araçatuba. A proximidade também é importante para essa terapêutica?
HPF - Isso é fundamental. Humaniza o tratamento. Boa parte desses pacientes tem dificuldade financeira, fator que dificulta o deslocamento de familiares para o acompanhamento no período operatório. A realização desse procedimento, mais próximo de sua residência, deixa o paciente mais seguro. A proximidade com a equipe que vai cuidar no pós-operatório também é muito importante, pois fortalece os laços, amplia a confiança.
SSC - O que representou o credenciamento do Serviço de Cirurgias Cardiovasculares, pelo SUS?
HPF - Foi muito importante. Um serviço de cirurgia cardíaca numa cidade do interior do país, basicamente, funciona com pacientes do SUS. Por outro lado, a cirurgia cardíaca é um serviço de alta complexidade. Quanto maior o volume de procedimentos, mais qualidade se obtém, oferece mais possibilidades de aprimoramento da equipe.
SSC - Qual a avaliação que o senhor faz em relação à estrutura que o hospital oferece à especialidade?
HPF - A Santa Casa possui hoje uma estrutura que a coloca em condições de igualdade com os principais centros de tratamento das doenças do coração. A começar pelo atendimento de urgência e emergência. O pronto socorro mantém um cardiologista de plantão, 24 horas. Em retaguarda a esse atendimento de urgência, o hospital possui uma unidade de terapia intensiva especializada em cardiologia e com cardiologista e corpo de enfermagem preparados para atender todos os tipos de urgência. Também temos, de plantão, um serviço de hemodinâmica preparado para realizar diagnósticos e tratamentos de emergência, principalmente os relacionados à coronariopatias, como os infartos e as síndromes coronárias agudas. O hospital possui também uma equipe de cirurgia cardíaca de plantão para, se necessário, realizar as cirurgias de emergência. Paralelamente à essa estrutura especializada, o hospital mantém um ambulatório para o atendimento de pacientes encaminhados pela rede básica de atendimento. Além de especialistas em clínica e cirurgia cardíaca, o hospital disponibiliza aos pacientes, toda sua estrutura de exames para diagnóstico.
SSC – Recentemente, a direção clínica do hospital transferiu todas as internações cardiológicas, clínicas e cirúrgicas para o primeiro andar da nova torre. O que isso agrega ao tratamento desses pacientes?
HPF - Esse foi um fato muito positivo. Primeiro porque a nova ala possui enfermarias com apenas 2 pacientes. Isso permite um atendimento mais personalizado, mais humanizado. Já a criação de alas exclusivas para a patologia permite a educação continuada dos profissionais que atuam no setor, resultando em melhor atendimento ao paciente. Além disso, as cirurgias cardiológicas são consideradas cirurgias limpas, ou seja, com tendência menor a infecções. Quando os pacientes permanecem internados em área específica, essa tendência é ainda menor.
SSC - A estrutura do Serviço de Cirurgias Cardiovasculares é adequada a quais tipos de procedimentos?
HPF - Hoje estamos realizando praticamente todas as cirurgias cardíacas complexas, com exceção, apenas, do transplante cardíaco e das cirurgias para correção de cardiopatias congênitas complexas, que necessitam de uma estrutura especial para acompanhamento pós-operatório, no restante, as demais modalidades podem e são realizadas, e com bons resultados. Porém, é necessário considerar que trabalhamos com cardiopatias graves que possuem morbidade e mortalidade maior em relação a outras patologias.
SSC - Quando um paciente chega para ser tratado por sua equipe é porque já foram esgotadas todas as possibilidades de tratamento clínico. É possível prevenir, ou até evitar, que uma doença cardiológica, não congênita, se transforme num caso cirúrgico?
HPF - É muito importante as pessoas terem em mente que o modo em que vivemos é um fator importante para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares. É claro que o patrimônio genético exerce influência decisiva sobre elas. A medicina ainda não pode alterar a tendência genética nas doenças cardiovasculares. Acredito que, futuramente, ela (a medicina) conseguirá identificar os genes que influenciam nisso. Porém, a maior parte dos casos que atendemos é decorrente de maus hábitos de vida. Dietas muito ricas em gorduras e sal, e sedentarismo. Alguns casos cirúrgicos poderiam ser evitados, ou retardados, com hábitos mais saudáveis. Diminuição da ingestão de sal, gorduras e bebidas alcoólicas, exercícios diários e tabagismo zero são os pilares para a prevenção das doenças cardiovasculares e sinônimo de mais qualidade de vida para os portadores de cardiopatias. É bom lembrar, também, que as pessoas que já tiveram um evento cardiovascular -- seja infarto, angina ou já tenham sido revascularizados -- devem associar o tratamento clínico a uma mudança de hábitos. Isso lhes permitirá desfrutar de qualidade de vida e sobrevida adequada.
SSC- E para os próximos 10 anos? Que desafios o Serviço de Cirurgias Cardiovasculares precisará vencer?
HPF - Acredito que o próximo passo seja a ampliação dos serviços para as áreas ainda não atendidas, como as cardiopatias congênitas complexas. E, futuramente, o transplante cardíaco. Para que esses avanços sejam consolidados, serão necessários novos aportes oficiais. Com isso, o hospital terá condições de investir na ampliação e especialização da estrutura física e contratar profissionais que possam se dedicar a esse tipo de atividade.

