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26/09/2023 19:31:47 - Rim doado por paciente em morte encefálica garantiu uma nova vida a um comerciante de Araçatuba

Tomar água e fazer xixi. Essas duas necessidades, tão comuns às pessoas, foram redescobertas pelo comerciante de automóveis Mario César Boanarotti logo após ter recebido um dos rins de um doador em morte encefálica. Ficar livre das máquinas de hemodiálise, às quais ele precisava recorrer três vezes por semana para filtrar o sangue, foi o que ele considera o passaporte para uma nova vida.

“Eu passava muito mal depois das sessões de hemodiálise e, muitas vezes, não conseguia trabalhar”, relembra Boanarotti. A mudança no tom da pele, “para amarelado e depois acinzentado”, também assustava o comerciante.  Diabético e hipertenso, no início de 2022 Boanarotti entrou para a estatística de pacientes com doença renal crônica que, de acordo com a Sociedade Brasileira de Nefrologia, atinge mais de dez milhões de brasileiros.

A terapia substitutiva (hemodiálise e diálise peritoneal), dietas restritivas e medicações para problemas decorrentes da doença renal crônica são caminhos que esses pacientes terão de percorrer como tratamento. O transplante é a esperança que move a maioria dos pacientes que dependem de sistemas artificiais de filtragem do sangue.

Em 2022, 11 pacientes do HR conseguiram realizar o transplante. Neste ano, até o mês de agosto, 16 pacientes  foram transplantados. Os números são pequenos se comparados ao total de pacientes aptos para o transplante renal. “Dos pacientes atendidos pelo Hospital do Rim, 70% têm perfil para entrar na fila nacional de espera por um rim”, afirma o nefrologista Guilherme Ugino, da equipe médica do Hospital do Rim da Santa Casa de Araçatuba.

A pouca oferta do órgão torna a espera lenta e angustiante. O rim é o órgão com maior demanda dentre os pacientes que aguardam por transplante, somando 31.541 pacientes no país, dos quais, 1.175 são crianças.

Com pouco mais de um ano de tratamento, Boanarotti conseguiu o transplante. A compatibilidade, o quadro clínico e a agilidade para chegar ao Hospital das Clínicas de Botucatu, referência para transplantes renais no interior paulista, contribuíram para a consolidação “daquilo que eu mais esperava receber em minha vida”, afirma ele. 

O tão esperado telefonema do Hospital de Botucatu aconteceu no início da noite de 12 de abril deste ano.  "Eram 19 horas. Disseram que havia um rim compatível para mim, mas eu teria que chegar lá até no máximo as 23 horas, pois teria de fazer vários exames”, relembra o comerciante que, "dentre a emoção do telefonema e tudo o que ainda tinha de arrumar, não sabia o que fazer primeiro”.

O transplante foi realizado na manhã do dia 13 de abril sem intercorrências. Ultrapassado o período de possível rejeição do órgão transplantado, ele precisou enfrentar um quadro de infecção que não é incomum aos transplantados. “Mas ficou tudo bem e desde o mês de julho estou liberado pelos médicos”, afirma.

Bem disposto, corado como há muito tempo não se via, tomando água à vontade, fazendo xixi de novo e  trabalhando normalmente, Boanarotti voltou nesta semana ao Hospital do Rim para agradecer ao médico que o acompanhou e às enfermeiras do setor. Foi recebido com muitos abraços e palavras de encorajamento. “Agora é só se cuidar e vida nova, parabéns por ter conseguido”, disse o nefrologista Guilherme Ugino durante o encontro.

Boanarotti também voltou às salas de hemodiálise e ficou triste ao rever seus ex-colegas “de máquina”  realizando sessões. "Peço a Deus que cada um deles tenha a oportunidade de receber um rim, assim como eu recebi."

Ele, que antes de ficar doente já pensava em ser doador de órgãos, agora está decidido. “E não estou sozinho; meus filhos, esposa e noras também já declararam que são doadores”, afirma.

“Desejo tudo de melhor para os familiares que autorizaram a doação dos órgãos de seu ente querido. Sem isso, eu estaria tão ou mais doente do que estava. Sei que essa pessoa (o doador) está feliz pelo ato tão nobre para outras pessoas. Ele está feliz lá no céu, e eu estou feliz aqui com a minha família”, afirma, emocionado. "Todos devem ser doadores de órgãos; se não doar, vai estragar debaixo da terra; doando vai trazer vida para pessoas”.

 


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